quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Reflexões...

Esse texto é de uma das minhas escritoras favoritas, a gaúcha Martha Medeiros. Martha é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro.


A Alegria na Tristeza
O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.

Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.

Martha Medeiros.


5 comentários:

  1. Adorei a postagem Laura...
    Aliás Martha Medeiros é indiscutívelmente uma das maiores cronistas brasileiras, adoro muito os seus textos, suas crônics...
    beeijjiinhoos... ;*

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  2. Obrigada Kelem :D
    Com certeza, Martha Medeiros é uma escritora incrível! Seus livros e crônicas valem a pena sererm lidos. Beijooo :**

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  3. É meninas, vcs fazem a diferença,teem conhecimento, ler Martha Medeiros ñ é para
    qualquer um.
    Nós temos o privilégio de ler em ZH
    Martha Medeiros, Luiz Fernando Verissimo
    Moacir Scliar, numa época em que
    tá dificil adquirir livros de escritores
    do nível destes

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  4. Concordo contigo,Gilda... e temos o privilégio de sermos agraciadas por essas meninas que gostam e têm o hábito da leitura,e uma boa leitura.
    Parabéns gurias pela idealização desse blog.
    Esse é o caminho!!!!

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  5. Obrigada pelo apoio mamães da gente! uhsuahu
    beijooss! ;*

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